Casamento: uma relação comercial?

Entro no site Casamento&Cia. Tem lá uma página chamada “Piadas de Casamento“. No fim do texto, a observação: “Matéria publicada pelo C&Cia, para melhorar seu namoro, noivado, casamento, casamentos e ajudar as noivas e casais.” Será?

Alguns exemplos edificantes:

O filho pergunta para o pai: “Papai, quanto custa para casar?” E o pai responde: “Não sei, filho, ainda estou pagando”.

O homem descobriu que seu cartão de crédito foi roubado, mas decidiu não avisar a polícia porque o ladrão estava gastando menos que a sua mulher.

Um homem bem-sucedido é o que faz mais dinheiro do que sua mulher pode gastar. Uma mulher bem sucedida é a que encontra esse tipo de homem.

Um casal estava discutindo sobre as finanças. O marido explodiu e falou: “Se não fosse pelo meu dinheiro, essa casa não estaria aqui.” A mulher respondeu: “Querido, se não fosse pelo seu dinheiro, EU não estaria aqui”

Uma mulher estava conversando com uma amiga: “Fui eu que fiz o meu marido milionário”. A amiga: “E o que seu marido era antes?” A mulher responde: ” Um Bilionário”.

Um homem estava reclamando com um amigo: “Eu tinha tudo: dinheiro, uma casa bonita, um carro esporte, o amor de uma linda mulher, e então…tudo acabou.” O amigo: “O que aconteceu?” O homem: “Minha mulher descobriu…”.

Engraçadíssimo, não? Essas frases tão hilárias zombam do sofrimento dos homens que caem na armadilha do casamento, vítimas que são, ludibriados e explorados pelas vis mulheres interesseiras. Tadinhos, é isso?

Ou será que o alvo da zombaria é outro, na verdade: as mulheres. “Mulheres, até casadas, são todas prostitutas”. Ra-ra-rá! Não é isso que a gente subentende?

Eu cito aqui um site de casamentos engraçadinho “super bem-intencionado”. Mas a gente ouve isso o tempo todo. Quem nunca se viu obrigada a dar um risinho amarelo para algum idiota que se acha muito engraçado ao fazer esse tipo de “humor” misógino?

Outra coisa: piadas de casamento quase sempre, para não dizer sempre, são do ponto de vista masculino. Por que será, minha gente? Será porque seria difícil zombar do fato de que casar, embora seja visto como um sonho feminino para muitas e para a sociedade, ainda signifique uma relação desigual e submissa para a mulher?

Sem mais o que fazer

Eu sou mulher à toa e não tenho mais o que fazer. Não tenho mais que ser amante. Não tenho mais que ser esposa. Não tenho mais que ser namorada. Não tenho mais que ser mãe — se não quiser.  Não tenho mais que dar satisfação. Não tenho mais que me ajoelhar diante de um padre. Não tenho mais que escutar conversinha mole e cantada ordinária na rua. Não tenho mais que levar tapa. Não tenho mais que ser tocada — se não quiser.  Não tenho mais que ser bonita para ser aceita, nem magra, nem elegante, nem sarada, nem modelo — só se eu quiser. Não tenho mais que entortar meu pé num salto, borrar minha cara de base para obedecer a um código. Não tenho mais que esconder meu corpo. Não não tenho mais que ser obrigada a mostrá-lo. Não tenho mais que cuidar sozinha da casa e dos filhos. Não tenho mais que ser super. Não tenho mais que ganhar menos. Não tenho mais que baixar a cabeça. Não tenho mais que me calar. Não tenho mais que pedir licença para ser mulher.  E porque eu não tenho mais nada disso que fazer, eu sou à toa. Chamem-me vadia!